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quinta-feira, 8 de abril de 2010

Lembranças de um Rio


Lembranças de um Rio

Meu rio não era perene, era um riacho-rio, forte e largo no inverno, porém, seco no verão, ficando apenas com fontes isoladas, onde a bicharada, vinha ali saciar sua sede. Essse singelo rio, foi um dos mais belos cenários da minha infância e juventude. Todas as manhãs e todas as tardes, íamos lá, pegar a água para beber e cozinhar. E lá chegando, nos deleitávamos em suas areias frias, onde brincávamos de escrever, desenhar e tantas outras brincadeiras daquele nosso pequeno mundo. A vida ali era humilde, mas tu, meu rio, abraçava, acarinhava e alimentava a nossa inocência e fantasia, nos proporcionando momentos de grande felicidade.
Lembro-me, meu doce rio, que em tuas águas aprendi a nadar e era imensamente gostoso em ti mergulhar, pular das oiticicas e ingazeiras em tuas poças, ou ao forte calor nordestino, nos molharmos lavando em ti as roupas de toda a família. Lá, em tuas lindas margens,existia um ambiente comunitário onde sa crianças, os jovens e os adultos se beneficiavam naquela convivência tão saudável.
Teu cenário era lindo, fosse verão ou inverno, pois em cada época do ano a tua silhueta contornava alegremente a pequena cidade de Encanto, construída na tua margem ao pé da serra. Olha, majestoso rio, a tua brisa e o teu cheiro, ainda moram em mim e hoje, depois de tantos anos, relembro o visual das tuas corredeiras nos lindos lajeiros por onde você passava e o frescor das tuas águas banhando os nossos pés, ao te atravessarmos, quando íamos pra escola. Nessas ocasiões, pra ti, tirávamos as nossas sandálias. Por esses tantos maravilhosos momentos, é muito bom te conservar em minhas lembranças.

Ao pensar em ti, doce rio, lembro do meu primeiro amor, pois lá em tuas águas me olhava, pensando e sonhando com o meu amado colega da escola. Por ele, meu amigo! Sentada em tuas margens, muitas vezes chorei... e era em ti, que mergulhava, lavava meu rosto e admirava a minha imagem refletida no espelho das tuas serenas águas. Doces lembranças... Nesses momentos, achava-me bela e eras tu quem me dava essa magia.

Rio da minha infância e juventude... sei que nunca vou te esquecer, porque fostes um grande e mágico amigo, em cada momento da minha vida. Tuas águas me ensinaram que posso ser forte, doce e cristalina, mas para isso, as vezes precisamos passar por turbulências, escassez e escuridão, para só então, nos purificarmos e descobrirmos a essência da vida. Tu eras assim, primeiro passavas por grandes dificuldades descendo as serras, contornando as pedras e abrindo o caminho. Tuas águas ficavam barrentas, de cor marrom. E você, meu lindo rio, ficava assim por vários dias, mas depois das primeiras enchentes, suas águas de aspecto tão sujo, voltavam a serem puras, cristalinas e serenas. Aí, seu leito se transformava em berços para muitas espécies de vidas. E essas águas que antes eram de cor marrom, se tornavam tão claras, a ponto de nos servir como espelho, uma vez, que nelas eram refletidas nossas imagens, o céu em sua grandeza e todo o mundo ao seu redor.

Cada vez que penso em ti, meu singelo Rio, lembro-me das lições aprendidas em tua convivência e por isso, não posso te esquecer... porque fostes e ainda és meu eterno amigo. E hoje, ao te ver afogado por uma grande represa, que em ti fizeram, mas que era necessária, para armazenar suas águas e assim a população se prevenir contra o ataque das secas, não me sinto triste. Sei que lá ainda estais alimentando a represa. Mais te vendo na memória, me bate uma saudade... daquele tempo em que me agarrava a ti para aprender a ser forte, ou me deitava em tuas areias a sombra das oiticicas e me deleitava no meu reino de fantasias. Tu jamais conseguias passar despercebido, pois eras um oásis que cortava a caatinga. A serpente que ao se arrastar pela terra seca e quente, deixava leite e mel por onde passava e por isso, em vez de temida, era querida e amada por por todos do lugar. Hoje, meu lindo Rio, tu ainda existes, mas precisa muita sensibilidade na alma de cada ser, para enxergar esse majestoso riacho-rio que a represa afogou.

Carvalho / Janeiro -2008
Texto do meu livro - Florescer da alma